terça-feira, 18 de setembro de 2012

Esmeralda de R$ 2 bilhões sai da Bahia e vai parar na Justiça americana


 Uma pedra gigantesca e rara, descoberta há 11 anos, desperta a cobiça de brasileiros e americanos, num jogo de mentiras e traição. É a disputa pela esmeralda Bahia, uma peça bruta de quatrocentos quilos que pode valer até dois bilhões de reais. 

 Hoje, a pedra está sob o poder da justiça americana, em Los Angeles. E uma pergunta permanece sem resposta: afinal, quem é o verdadeiro dono da super esmeralda? 
Brincos de duzentos mil reais! Uma pulseira de cento e dez mil. E este anel? Setenta e seis mil. Colares dignos de uma princesa! 

 Essas maravilhas são as esmeraldas que a gente conhece. Mas... E se a esmeralda for assim? Em vez de polida e brilhante, uma pedra bruta, mas gigantesca? Pode valer quanto? 

 Essa aqui é brasileira. Talvez a maior de todos os tempos! Quase quatrocentos quilos. O preço pode chegar a um bilhão de dólares, dois bilhões de reais! 

“Essa aí é uma peça de coleção.”, diz o geólogo Marcos Donadello Moreira. 
Foi descoberta numa mina baiana, em 2001. E teria saído de lá por mixaria.  
Fantástico: Por quanto o senhor vendeu, o senhor lembra? 
Darcy: Eu vendi por 45 mil. 


 Na tradição do comércio de pedras preciosas, de muitos intermediários e contratos só de boca, ela foi passando de mão em mão. Até ser, discretamente, despachada pra fora do Brasil. 

“Essa pedra foi extraída do território brasileiro sem a devida autorização”, informou o diretor Advocacia Geral da União, Boni de Moraes Soares.

 Pelo menos cinco pessoas brigam no tribunal americano pela esmeralda Bahia, inclusive
dois ex-amigos que hoje se odeiam por causa dessa disputa. Será que essa esmeralda, que não para na mão de ninguém, é uma pedra maldita?

 A esmeralda gigante, conhecida por esmeralda Bahia, é o centro de uma história de negócios mal explicados, roubos, incêndios, mentiras e traição. E essa história, você vai conhecer agora! 
 A esmeralda Bahia, que tanta disputa, tanta cobiça tá provocando nos Estados Unidos, foi descoberta numa região muito simples, no povoado da Marota, na Serra da Carnaíba, na Bahia. 
As esmeraldas começaram a ser exploradas nos anos 60. Não precisava nem cavar. Elas brotavam do chão! Não durou muito. 

“Era catado em carrinhos de mão, não davam conta e logo houve a necessidade de fazer escavações rasas, que logo se esgotaram. Quando eu estive lá a primeira vez, em 72,  já eram várias escavações até 30, 40 metros”, informou o geólogo.

 Hoje, as minas descem até 300 metros! Tudo ainda bem primitivo. Pra falar lá embaixo, é pelo cano-fone! 
E agora pra entender direitinho como é que funciona uma mina de esmeraldas, a gente vai descer a 62 metros. 

 Um lugar muito úmido. No caminho, mesmo a rocha que parece mais comum sempre esconde algum brilho.

 Canga, ou ganga, é essa mistura de esmeralda com rocha. A esmeralda Bahia é uma canga. E, na história que os garimpeiros da Serra de Carnaíba contam, ela foi encontrada na mina que o Fantástico visitou.

 O poço tem 27 metros de profundidade. A gente tem que passar com bastante cuidado. 

“Essa foi onde foi extraída a canga e outras cangas que a gente vendeu”, disse um trabalhador da mina.

 Seu Darcy ficou com várias dessas peças. É um homem de vida simples, mas dono de um conjunto raro. 
Enquanto os americanos brigam por uma única pedra brasileira, Seu Darcy, no fundo da casa, tem uma coleção de várias delas, muito parecidas com a que tá lá nos Estados Unidos. "É uma coleção de esmeralda, cangas de esmeralda", diz Seu Darcy.

 Ele compra a canga bruta e vai esculpindo, para expor as hastes verdes. 
 Fantástico: Por quanto o senhor tá querendo vender o lote inteiro? 
 Seu Darcy: O lote todo um milhão. Um milhão de reais.

 Mas o principal negócio na área é o comércio de esmeraldas pequenas e não tão valiosas. 
Campo formoso é o principal ponto de venda das esmeraldas que saem das minas. Em lugares como esse aqui, bem no centro da cidade, a Feira do Rato. 

“É um comércio que gira em torno aqui também. O povo fica comprando aqui e
vendendo aqui mesmo”, informou o comerciante de esmeraldas Lindomar Teixeira da Silva. 

 Fantástico: Essas pedras aqui, quem que compra? 
 Vendedor Antônio Alves: Rapaz, quem compra elas aqui é os indianos. 

 A grande parte das esmeraldas compradas aqui na serra de carnaíba por mais de 30 companhias indianas é vendida pro mercado árabe, onde é usada em decoração de casas e de mesquitas.

 Conversamos com indianos no hotel. Fomos até o escritório deles na cidade. 
 Esse negócio é obscuro, envolvido em segredo. Nenhum indiano quis gravar entrevista. 
 As pedras chegam aos indianos na cidade, vindas das minas, que ficam afastadas, em povoados como Carnaíba de Cima.

 Mesmo depois que as pedras são vendidas, vão para a cidade grande, é como se elas levassem consigo os mistérios do garimpo. É o caso da saga esmeralda Bahia, cheia de versões diferentes, depende de quem conta.

 O Seu Darcy, que você viu no começo desta reportagem, diz que comprou a pedra, na boca da mina, por R$10 mil reais, e que a revendeu por R$45 mil. Mas essa transação não aparece no processo americano. 

 Nos Estados Unidos, quem está no jogo são dois novos personagens: os comerciantes Elson Ribeiro e Ruy  Saraiva Filho, de São Paulo. Eles têm uma versão diferente da do seu Darcy e da qual ele não faz parte. Elson Ribeiro afirmou à Justiça americana que a família dele era dona da mina na época em que a esmeralda foi achada.

 Ele alega que, sem passar por intermediários, a pedra foi levada pra São Paulo, e foi assim que os compradores americanos entraram na jogada, na figura do empresário Tony Thomas. 

 Tony disse, também à Justiça dos Estados Unidos, que foi apresentado aos brasileiros por outro americano, Ken Conetto, do qual era muito amigo.

 Elson e Ruy dizem que nunca venderam a esmeralda. Mas, no depoimento, Tony declarou que, encantado pela pedra, pagou por ela 60 mil dólares. Em valores de hoje, cerca de 120 mil reais. 
 Mas será que a esmeralda valia só isso mesmo? Ou muito mais? 

 O geólogo Dimitri Paraskevopulos de São Paulo foi chamado para avaliar. 
 E ele deu um laudo, liberado pela justiça de Los Angeles na internet. Ele atribui à pedra um valor altíssimo: 925 milhões de dólares, quase dois bilhões de reais. 

Fantástico: Quem pagaria tudo isso por uma esmeralda dessa? 
Especialista: Aquele que pagaria 106 milhões para um quadro do Picasso.

 O Sr. Dimitri, imigrante turco de origem grega, com 90 anos de idade, 40 de Brasil e muitas histórias, hoje trabalha em um pequeno escritório no centro paulistano. Lembra que fez um primeiro laudo com valor mais baixo.

“Se não me engano, foi 170 milhões”, disse Sr. Dimitri. 
Mas os clientes reclamaram, ele aumentou. E se justifica. 

“São peças que não podem ser comparadas, não existem tabelas para este tipo de peças, são únicas no mundo. Como muitas coisas raras, o preço é estabelecido entre o comprador e vendedor.”, disse o geólogo. 

 Já o presidente de um grande museu americano, com doutorado em geologia e 42 anos de experiência em pedras preciosas, diz que a esmeralda Bahia não vale tudo isso. Pelas fotos, avalia: “O fato dela ter sido mexida e danificada diminui muito o interesse. Para
ter valor e beleza, tem que estar totalmente intocada”, disse o presidente do Museu Bowers, Peter Keller. 

 E não se entusiasma nem com os quatrocentos quilos da pedra. “As coisas boas vêm em embalagens pequenas”, brinca o presidente do museu. 
 Mas opiniões como essa não esfriam a briga pela pedra. Tony Thomas declarou que, depois de acertar a compra da esmeralda, voltou com Ken Conetto para os Estados Unidos. A pedra seria entregue depois. Só que ela nunca chegou. E o amigo disse, segundo Tony, que ela tinha sido roubada no trajeto. 
 O tempo foi passando, Tony foi esquecendo o prejuízo, até que, em 2008, viu notícias de uma esmeralda gigante que tinha sido apreendida pela polícia, numa denúncia de roubo. Reconheceu na hora: era a esmeralda Bahia! Que história, hein? 

 O Fantástico foi à Califórnia falar com os policiais que fizeram a apreensão. 
 Ninguém conhece mais esse caso tão complicado das esmeraldas como o Scott e o Mark. Eles são detetives da polícia da região de Los Angeles. Os dois contam que se espantaram com a quantidade de supostos donos, e suas versões mirabolantes! 
“Como tem tanta fraude nesse caso e tantas histórias sobre a esmeralda Bahia, nós resolvemos guardá-la e deixar um juiz decidir quem é o dono, disse o detetive Mark. 
 Desde a chegada do Brasil aos Estados Unidos, a super esmeralda tinha passado por várias fases. Ficou em um cofre em Nova Orleans, bem na época do furacão Katrina. 

"Ela ficou inundada no terceiro subsolo, e foi resgatada por mergulhadores", diz o policial. 

 Depois, passou de mão em mão. Agora, cada um desse monte de intermediários diz que é o verdadeiro dono. Como prova de que a esmeralda era dele, Tony Thomas apresentou uma foto, tirada em São Paulo. 
 Mas a história de Thomas tem um furo. Se ele comprou mesmo a esmeralda, cadê o comprovante? Sumiu.   Tony diz que o papel virou cinza, num incêndio na casa dele em 2006. E que o fogo foi ateado pelo ex-amigo Ken Conetto. Para Thomas, o incêndio foi provocado para tirá-lo do jogo. Ele não poderia mais provar que era o proprietário. 

 Só tem um detalhe que a gente ainda não explicou. O Ken Conetto não tinha falado pro Tony Thomas que a pedra havia desaparecido no trajeto entre aqui, o aeroporto de Viracopos, e os Estados Unidos? Então como é que de repente a esmeralda apareceu lá? 

 É que a esmeralda tinha, sim, sido enviada pros EUA. Saiu de Campinas, como se fosse
um pacote qualquer. Segundo informações obtidas pelo Fantástico, no comprovante da empresa de encomendas expressas, estava escrito apenas: "pedra". 

“O envio se deu sem o devido registro de exportação dessa pedra”, informou o advogado do departamento internacional da AGU. 

 O governo brasileiro entrou na história e quer a pedra de volta. Imediatamente. 
“A esmeralda Bahia é parte do patrimônio nacional. Assim que retornar, deve ser colocada à disposição para a realização de estudos científicos, a exposição em museus, em estabelecimentos de ensino”, disse o advogado.

 Foram os brasileiros Élson Ribeiro e Ruy Saraiva Filho que despacharam a pedra aos Estados Unidos. Eles estão sendo investigados. 
“Eles podem ser sim condenados pela Justiça federal por evasão de divisas, falsidade ideológica, enfim, entre outras atividades ilícitas”, informou o advogado. 
 Elson Ribeiro tem lojas em Limeira, a 150 quilômetros de São Paulo. Deixamos recado, e todos os nossos contatos. Ele não ligou de volta. Na casa de Ruy Saraiva, em São Paulo, o porteiro disse que ele não estava. Também deixamos os contatos, mas ele não nos procurou. 
 Durante três semanas, conversamos por telefone com Tony Thomas, que não quis gravar entrevista. Ken Conetto só atendeu a uma ligação, e disse que não falaria. 

 A Justiça da Califórnia retoma o caso agora em outubro. E o julgamento já tem data: janeiro do ano que vem. 

 Num único ponto, todos os interessados na esmeralda Bahia parecem concordar. O destino dela não é virar uma dessas jóias fantásticas que enchem os olhos. E sim ser admirada como um todo, em sua forma natural.

Fantástico: Pra que ela serve? 
Geólogo Dimitri Paraskevopulos: Nada. É uma raridade. É uma raridade, não tem uma igual. 

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